Publicado por: Fernando de Oliveira | 03/07/2013

A Voz do Brasil, a classe política e a falta de vergonha

Ontem, depois de muito tempo, resolvi ouvir A Voz do Brasil do início ao fim. Apesar da obrigatoriedade de sua transmissão ser uma excrescência dos tempos da ditadura – grifo a palavra obrigatoriedade, já que considero salutar a sua produção e veiculação para quem tiver interesse – o programa segue uma linha editorial que procura ressaltar o trabalho dos parlamentares, embora eles mesmos não ajudem os jornalistas.

Voz do BrasilDecidi ouvir o programa para checar o que nossos parlamentares teriam a dizer depois da série de manifestações no país sobre, inclusive, a falta de representatividade do nosso Congresso. O que ouvi foi um festival de declarações favoráveis aos pleitos dos manifestantes e uma série de frases como: “O povo precisa participar mais das decisões do Congresso“, “O Congresso precisa votar matérias de interesse da população“, “O povo não se sente representado pelo Congresso” e “É muito oportuna a celeridade em votar as matérias realmente importantes“.

Incrivelmente, nenhuma das colocações serviu para que qualquer um dos parlamentares admitisse suas falhas ou os pecados (seus e de seus pares). Todas as reivindicações pareciam vir de um mundo paralelo, onde deputados e senadores não faziam parte do problema. Uma parlamentar chegou a justificar a falta de representatividade do Congresso dizendo que as mulheres são a maioria da população, mas apenas 8% dos deputados são do sexo feminino.

A bizarrice continua se pararmos para analisar o que foi dito. Por exemplo: “O Congresso precisa votar matérias de interesse da população“. O que o Congresso anda votando? Que matérias vão a plenário, se não são importantes para a sociedade?

A mudança no ritmo de votações é impressionante. Chegam a desencavar leis que tinham 90 dias para serem sancionadas e que estão paradas há mais de dez anos!

Cara de pau sem fim

É difícil fazer um diagnóstico preciso da(s) real motivação que fez a população ir para as ruas com tanta veemência, mas é claro que a (justificada) má imagem da classe política, seus constantes casos de corrupção e desrespeito com os votantes estavam na linha de frente dos descontentamentos. Mesmo assim, descobre-se que o presidente da Câmara, ilustríssimo deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), requisitou um avião da FAB – coisa que teoricamente pode fazer no caso de compromissos relativos ao seu cargo – para levá-lo de Natal até o Rio de Janeiro para assistir a final da Copa das Confederações. Pior, a “desculpa” é a de que teria um encontro com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, encontro que nem de perto pode ser considerado um compromisso oficial. Pior, muito pior, ainda, ele levou a noiva, dois filhos e mais um casal. Ainda tem mais: na volta, trouxe mais uma pessoa, amiga de alguém.

Plenário do CongressoNão sei se existe um exemplo mais claro de desconexão com o momento político, além de total falta de ética e uma tremenda cara de pau, já que nosso deputado apenas emitiu uma nota, dizendo que irá pagar pelos passageiros extras e que levá-los foi um erro. Se isso não é m caso de quebra de decoro parlamentar e/ou falta de ética e desrespeito com os recursos públicos, eu não sei mais o que pode configurar e merecer tal nomenclatura. Em qualquer país sério esse cidadão renunciaria ao mandato (não apenas ao cargo) ou seria expulso pelos demais parlamentares, depois da abertura de um processo contra ele. Depois, emitir uma nota e “ressarcir” (R$ 7 mil) o “preço das passagens” é no mínimo uma brincadeira de mau gosto.

Não concordo com aqueles que preferem votar em branco e nulo para depois ir para as ruas reclamar das falcatruas executadas por ladrões eleitos pelos outros. Que sejamos responsáveis por uma mudança lenta e gradual (4%, 5%, não importa) no quadro de nossos representantes, até que a maioria seja “do bem”. O que não podemos é largar o voto nas mãos dos despreparados ou mal intencionados, para depois vir com o slogan “você não me representa”.

O voto, independente da sua inclinação político partidária, é um instrumento poderoso e deve ser usado de acordo com a sua consciência. Já votei no PSB por anos, em candidtatos do PT, PCdoB, PMDB, PSDB e vários outros partidos, sempre com clareza de que achava o candidato um bom nome. Não votei no Collor, mas votei em Mario Covas e no Lula, por exemplo. De esquerda, centro ou direita? Não importa. O que importa é (por mais que se fale de coisas mais supérfluas e besteiras em geral) ter um mínimo de contato com a realidade do país e do mundo.


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